28ª Mostra Cultural da Casinha Pequenina

28ª Mostra Cultural da Casinha Pequenina

O que foi exposto na Mostra Cultural de 2026 da Casinha Pequenina são registros de investigações conduzidas pelas crianças ao longo do ano. Cada uma partiu de uma curiosidade do grupo, como uma pergunta feita em roda, um bicho encontrado no jardim ou um objeto trazido de casa, e foi ganhando forma com a mediação das educadoras. Mais do que trabalhos prontos, o que a Mostra apresentou foi o modo como as crianças pensam: elas observam, levantam hipóteses, testam ideias e chegam às suas próprias conclusões.

Um dos exemplos mais claros veio da pergunta de uma aluna: “Como são as bactérias?”. A dúvida mobilizou a turma inteira e resultou em uma investigação com procedimentos próprios do fazer científico. Com a orientação da coordenadora Anali, que é bióloga, as crianças prepararam um meio de cultura, coletaram amostras de diferentes lugares da escola e acompanharam o crescimento das colônias em placas de Petri. As falas registradas mostram o modo como elaboravam hipóteses: “No esfregaço 7 tem muitos tipos de bactérias, a colônia está vermelha”. A pesquisa também se converteu em hábitos de cuidado, como lavar as mãos, e ganhou uma saída de campo ao Instituto Butantan.

Em outro projeto, a matemática apareceu ligada ao próprio corpo. Ao descobrir que um velociraptor tinha a altura aproximada de uma cabra, a turma mediu com fita métrica as cabras da escola e, em seguida, os colegas. Ao comparar os valores obtidos, as crianças concluíram por conta própria que tinham altura equivalente à do dinossauro pesquisado. O conceito de medida, nesse caso, foi construído a partir de uma situação real, no mesmo projeto em que pesquisaram a profissão do paleontólogo e produziram fósseis e pegadas em argila.

A investigação também se apoiou em objetos e experiências que aproximaram as crianças de outros tempos e lugares. Uma máquina de escrever antiga, levada para a sala depois de uma conversa sobre como as pessoas escreviam antes dos computadores, abriu caminho para o estudo de outros objetos: um orelhão desativado na escola, um relógio de bolso herdado por uma das crianças e um ferro de passar antigo, cuja função gerou hipóteses das mais variadas, como “Parece uma casa de formigas!”. No Museu do Ipiranga, a observação de uma pena de escrever levou o grupo a experimentar desenhar com penas e tinta nanquim, e a comparar o resultado com a rapidez do computador. Já a leitura de um livro sobre a Amazônia fez a pergunta “onde vive a sucuri?” se desdobrar em pesquisas sobre rios, moradias e modos de vida, com maquetes de palafitas e pinturas feitas com urucum.

Um poema também foi ponto de partida. A leitura de “A coruja”, trazida por uma criança para a roda de leitura, fez surgir hipóteses sobre os hábitos noturnos: “Todas as corujas são noturnas”, “As corujas brancas não dormem, porque elas precisam proteger os ovos”. A partir dessas falas, o grupo passou a investigar outros animais que vivem à noite, explorando luz, sombra e adaptação das espécies, e chegou às espécies ameaçadas de extinção. A canção “Refloresta”, de Gilberto Gil, ampliou a conversa para o desmatamento e o cuidado com as florestas. A conclusão das próprias crianças resume o percurso: conhecer a natureza é o primeiro passo para protegê-la.

Os insetos, por sua vez, apareceram em várias turmas e de formas diferentes. Em uma delas, um hotel para insetos montado no gramado e as joaninhas e lagartas trazidas pelas crianças deram origem à Insetolândia, com lâminas de microscópio, desenhos de observação e fichas técnicas. O material produzido será transformado em uma websérie documental. Na turma do 1º ano, o estudo foi articulado a diferentes áreas do conhecimento: a observação direta de insetos encontrados pelas crianças, somada a fotografias e pranchas científicas, deu base para a produção de verbetes sobre as espécies escolhidas, fortalecendo a leitura e a escrita no processo de alfabetização. O projeto dialogou ainda com a instalação “Mundus Admirabilis”, da artista Regina Silveira, aproximando arte, ciência e natureza.

Os erros e as hipóteses inesperadas fazem parte do processo. Ao saber que a joaninha nasce de um ovo, uma criança comentou: “Eu pensei que ela nascia da barriga da mamãe!”. O registro dessas falas permite que a equipe acompanhe como o pensamento infantil se transforma ao longo do projeto.

Nos grupos menores, a pesquisa aconteceu pelos sentidos. Alimentos como beterraba e amora foram usados como tinta, e as crianças puderam perceber que cores também têm cheiro e textura. Em outra turma, lagartas encontradas no jardim foram acompanhadas em um terrário durante toda a metamorfose, do ovo à borboleta. No momento da soltura, algumas voaram direto para os galhos e outras pousaram nas mãos das crianças. Além dos registros, o projeto exigiu paciência e cuidado com um ser vivo, e as crianças venceram receios ao longo do caminho.

No Período Integral, o brincar e a culinária ocuparam o mesmo lugar de investigação. As crianças construíram uma sala de jogos com materiais naturais e não estruturados. A criação de um brinquedo squishy, feito de manta acrílica, papel e filme PVC, resultou em um jogo da memória produzido coletivamente, que ajudou a consolidar os conhecimentos do grupo. Pela manhã, o projeto de culinária reuniu as turmas em torno de ingredientes, escolhas saudáveis e receitas preparadas em conjunto, mobilizando planejamento e cooperação.

Em todos esses percursos, a participação das famílias foi constante: pesquisas feitas em casa, objetos herdados, exemplares de insetos, livros, fotos de visitas a museus e relatos que enriqueceram as investigações. Essa parceria sustenta a ideia de que a criança aprende quando escola e família caminham juntas.

O Salão Multiuso reuniu parte dessas produções em uma exposição inspirada nos artistas Antonio Peticov e Sonia Fugiwara, com esculturas individuais e coletivas. Sonia Fugiwara esteve presente conosco no evento. Ao longo da manhã, as crianças também participaram de vivências de yoga, capoeira, cirandas e música, e do espetáculo Cantos de Brincar, que ampliaram as linguagens pelas quais o corpo e a expressão são trabalhados na escola.

Esta Mostra registrou, assim, um processo que continua em andamento. Mais do que apresentar “resultados”, ela tornou visível o caminho percorrido pelas crianças: observar, perguntar, testar ideias e encontrar formas diferentes de comunicar o que descobriram.

Confira aqui alguns momentos do evento.

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